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Fisicalidades do Mundo Digital e Tipografias 0800

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E cá estamos em Fevereiro!

Esse mês carnavalesco e levemente deprimente, pois sigo em São Paulo temos na Boletim fontes novas do projeto Tipografia Vernacular 0800 e um mergulho pela transição tecnológica do começo do século e suas visualidades.

Nas indicações um livro engraçado sobre coisas tristes e uma playlist retrofuturista.

Bora que vamo→

ilustra fones

Qual música não saia dos seu MP3 em 2008?

Fonte Gratuita | Oferta Hortifruti

ofertas hortifruti
ofertas hortifruti

Já conhece o projeto Tipografia Vernacular 0800?

Ele nasceu das minhas viagens pelo Brasil como nômade e dos registros que fiz nesse período de placas escritas a mão. A partir dessas fotos comecei o projeto Tipografia Vernacular 0800 onde crio fontes gratuitas com base nessa galeria.

A fonte mais recente é a Oferta Hortifruti, baseada em um letreiro de um supermercado de Bertioga-SP. →

groselhas

O texto do mês são groselhas sobre a transição do mundo analógico para o digital e suas bizarrices

 A fisicalidade do mundo digital
Clique se quiser ler no blog ou comentar

Fisicalidades do mundo digital.jpg

Hoje é fácil imaginar o mundo digital como sendo um universo a parte, um lugar com uma linguagem e uma visualidade própria e facilmente reconhecível. Porém, isso foi uma construção que se deu ao longo de décadas de evolução computacional.

Quando a internet surgiu, ainda dentro das universidades como um sistema integrado de troca de informação, foi necessário criar a linguagem visual que nós reconhecemos hoje de forma tão natural.

Essa transição não foi fácil, no começo computadores eram telas pretas nada amigáveis que dependiam da programação do usuário para executar a tarefa mais simples. Algo taxado como um hobbie “nerd”, para aqueles dispostos a mergulhar horas em manual de instruções e compreender códigos complexos.

ibm

Isso não parece nem um pouco divertido

Foi com muita pesquisa e o trabalho de designers como a Susan Kare, que desenhou os ícones do Macintosh clássico, que os computadores ganharam o visual amigável que conhecemos hoje.

susan kare

Conheçam mais sobre a Susan Kare aqui

É claro que esses códigos não surgiram do nada, eles vieram daquilo que já existia e com isso estruturavam o mundo computacional de uma forma similar a como as coisas funcionavam na realidade. Embora no começo esses símbolos fossem assimilações óbvias para quem via, com o tempo eles se converterem em meras abstrações, totalmente distantes do seu significado inicial.

O exemplo mais claro talvez seja o clássico disquete. Os antigos “cartões” de armazenamento de informação deram origem ao símbolo de salvamento dos computadores, mas enquanto os disquetes caíram em desuso o símbolo se tornou por si só um pictograma inegavelmente reconhecido como o botão de salvar.

disquete

Quem se lembra de usar um disquete? fonte

Porém, esse anacronismo vai muito mais longe, não apenas ícones e nomes do digital são adaptações da realidade, mas a forma como um computador é organizado e pensado remete a maneira como escritórios funcionam nessa época.

“Arquivos” eram móveis literais super pesados que armazenavam “pastas” de papel e continham “documentos” em seu anterior. Bibliotecas lugares reais onde se guardavam livros, filmes e músicas. O wallpaper decorava de maneira física os escritórios com seus padrões. O CC, que hoje denota o encaminhamento de um e-mail é a sigla para “Carbon Copies” as cópias de um documento feitas em papel carbono. Enquanto o botão de “return” do teclado nasce do retornar necessário para o carrinho das máquinas de escrever.

arquivo

Para quem não conhece vos apresento um Arquivo

No inicio a transição para o mundo digital era uma tentativa de compreender como aquilo iria funcionar e o mais óbvio seria converter o que já existia, “provando” a utilidade prática do digital.

Era comum nos computadores widgets que simulavam o passar de páginas de uma revista, texturas de madeira e programas com interfaces realistas, cheios de gradientes. Para mim o ápice dessa estética eram os desktops decorados como um pequeno escritório, certamente um símbolo desse momento.

wallpaper

O clássico

Eu sou fascinada por essa transição do mundo analógico ao digital. Foi esse hiperfoco que me levou ao livro “Como Fazer (Quase) Tudo com o Seu Computador”, um calhamaço de 2003 lançado pelo Reader’s Digest, que prometia ser um guia para iniciantes no mundo da informática.

Como Fazer (Quase) Tudo com o Seu Computador

O ápice da vida digital em 2003

É óbvio que não comprei o livro por módicos R$20 no sebo pensando em sua utilidade prática, (sessões como “Faça Amigos Online” ou “Escreva Cartas Usando o Computador” não são exatamente aplicáveis hoje em dia), mas sim como documento histórico de registro desse momento de transição. Para mim esse livro retrata muito do que foi essa época, dessa construção do imaginário da internet como um lugar próprio e de suas utilidades. 

Acredito que não a toa hoje em dia estamos passando por uma onda de nostalgia quanto a internet do começo do século. Existia nesse período um grande otimismo sobre o que seria a internet, um espaço de infinitas possibilidades, onde todo conhecimento estava a um clique.

Com o tempo se perdeu essa noção, principalmente com a popularização do smartphone a internet se tornou um lugar de consumo passivo de conteúdo. Embora é claro ainda exista o conhecimento, a maneira como nós enxergamos a tecnologia, essa esperança e otimismo certamente ficou para trás.

pc antigo

Toda a diversão do seu computador pessoal

Um grande símbolo disso acredito que seja o abandono da estética “física” nos meios digitais. Com o tempo o digital se distanciou da realidade e com isso construiu uma estética própria, mais objetiva e minimalista, que busca justamente representar o avanço tecnológico frente ao físico.

As texturas de madeira, luzes e sombras se tornaram bregas e ultrapassadas frente a sites e aplicativos clean, onde tudo que importa é a experiência do usuário final. Se possível afastando-o ao máximo da noção de que o espaço digital é uma parte do físico e da natureza ao seu redor.

Eu particularmente entro na categoria dos que sentem falta da antiga internet, não por nostalgia, eu enxergo totalmente suas falhas e limitações. Não me esqueço da lentidão de tudo, a confusão de propagandas nos sites e a facilidade de se conseguir um vírus em qualquer link.

Porém, esse sentimento de democratização e otimismo da internet do começo do século foi algo único, que acho difícil voltar a existir em um momento futuro.

Para fechar esse post eu queria voltar um pouco nessa época e no livro “Como fazer (quase) tudo com o seu computador” porque ele, além ser um registro fantástico da internet dos anos 2000, também trás algumas das imagens icônicas para descrever as funcionalidades de um computador que ilustram muito bem essa conversão de realidades.

planilhas

Ah sim o mundo super divertido do Excel

virus

Vírus eram um problema gigante nos anos 2000

rar

O misterioso mundo da compactação de arquivos

pastas

Eu com minha pasta de memes

windows

Tantas janelas, tantas possibilidades

o que ando
ouvindo
capa playlist

Playlist Retrofuturismos

Pra combinar com o assunto do post de hoje queria falar da minha Playlist sobre Retrofuturismos, Ela nasceu quando fui ouvir (com algum atraso) o último album da Ana Frango Elétrico e me apaixonei pela faixa Electric Fish, ela me trouxe uma sensação muito única de nostalgia, assim como várias outras da Ana como a maravilhosa Saudade. 

Mas o ponto é que esse é um álbum novo, lançado em 2023, isso me fez pensar como é estranho que uma música recente consiga despertar essa sensação de nostalgia, ao mesmo tempo ser algo diferente do que já ouvi antes. 

A partir disso montei a playlist de Retrofuturismos que traz artistas como Ginger Root, Maglore, Dingo e Pearl & The Oysters que pra mim despertam esse sentimento de uma saudade de um passado inexistente, talvez um que imaginasse futuros mais interessantes. 
lendo
livro euridice gusmão
A Vida Invisível de Eurídice Gusmão - Martha Batalha
Eu realmente não sei porque diabos demorei tanto tempo para ler Martha Batalha. Esse foi o primeiro e mais famoso livro da autora e também foi a minha primeira leitura dela.

O livro conta a história de Eurídice, uma dona de casa carioca dos anos 1940 que se mostra absolutamente genial em tudo aquilo que se propõe a fazer, porém, como a maioria das mulheres da época, acabou renegada a um papel de dona de casa e mãe. Ainda assim ela tenta em sua rotina doméstica exercer sua criatividade, até onde sua parca liberdade a permite.

Esse livro é inspirado na avó da autora, mas também em inúmeras outras mulheres que tiveram o mesmo destino e acabaram invisibilizadas pela rotina. Embora pareça não se trata de um dramalhão, a prosa de Martha Batalha é deliciosa e hilária, usando a história de Eurídice e de sua irmã como ponta pé para fazer um panorama da sociedade da época e seus absurdos.