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Affinity, Adobe e as nossas lutas digitais de cada dia
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E cá estamos em Março!
Seguimos em São Paulo tentando sobreviver e enquanto isso seguimos criando coisinhas maneiras. Esse mês temos fonte nova pro Tipografia Vernacular 0800 e um texto que começou sobre programas criativos e terminou com um desabafo.
Nas indicações um livro esquisito (no melhor sentido) e um fantoche DJ.
Bora que vamo→

Zum de besouro um imã
Fonte Gratuita | Te Amo Jéssica
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Já conhece o projeto Tipografia Vernacular 0800?
Ele nasceu das minhas viagens pelo Brasil como nômade e dos registros que fiz nesse período de placas escritas a mão. A partir dessas fotos comecei o projeto Tipografia Vernacular 0800 onde crio fontes gratuitas com base nessa galeria.
A fonte mais recente é a Te Amo Jéssica, baseada em uma pixação que registrei em Florianópolis. Escolhi desenvolver uma fonte com ela pois adorei a contraposição da escrita agressiva pra um singelo Te Amo →
O texto do mês é sobre processos, mais especificamente minha tentativa de ter uma vida digital com menos ódio
Affinity, Adobe e as nossas lutas digitais de cada dia
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Nos últimos tempos eu estou em uma busca de tentar melhorar minha vida digital, afinal ela consiste em grande parte do meu tempo, então se meu mundo eletrônico for mais prático e divertido, então o mundo físico também é. Por isso andei testando alternativas a programas que já estava acostumada, novas opções e jeitos diferentes de fazer as coisas. Parte desse movimento foi certamente impulsionado pelo avanço da IA que tornou grande parte da informática insustentável.
Acredito que o maior ator nessa virada de chave tenha sido o Affinity. Eu, assim como 90% da área criativa, tenho minhas desavenças com a Adobe e com sua forma de alugar serviços e dominar a indústria. Por isso eu já queria há muito tempo encontrar uma alternativa, porém isso era incrivelmente complicado.
Eu uso o Illustrator há quase 10 anos, ele se tornou a minha principal ferramenta criativa, tanto no trabalho formal quanto no pessoal grande parte daquilo que eu criava passava pelo illustrator, então era difícil imaginar um software substituto.
Qual não foi minha surpresa quando a empresa do Canva anuncia a compra da Affinity, a maior concorrente da Adobe e disponibiliza um Affinity remodelado de maneira totalmente gratuita?
Essa parecia a oportunidade perfeita para fazer essa virada de chave, o que como disse um colega de trabalho “é como largar o cigarro”. Já estou há vários meses usando o Affinity no dia a dia, é claro que não foi uma mudança fácil, a adaptação demora e muita coisa ainda preciso recorrer a Adobe, porém foi certamente uma grata surpresa poder usar um novo programa para criar.
Acredito que a maior chateação com o uso da Adobe (além as práticas abusivas de controle de mercado) era a falta de integração entre os sistemas. O Illustrator foi lançado em 1987 e o Photoshop em 1990, eles foram uma enorme revolução na indústria criativa andando de mãos dadas com o avanço da computação. Teve início uma estética relacionada as possibilidades que esses softwares abriram, com resultados que antes eram impossíveis utilizando técnicas manuais.
Pegando qualquer revista do começo dos anos 2000 há uma explosão de gradientes, texturas, surtos tipográficos variados e imagens cheias de luz e sombra. Essas características (hoje incrivelmente bregas, mas ainda com estilo) eram o ápice da modernidade tecnológica, representavam um futuro digital onde tudo era possível e a Adobe era a pioneira nesse mercado. A indústria se desenvolveu ao redor da ferramenta e quando tudo já girava entorno de seus softwares a Adobe se tornou um serviço de assinatura, o que na prática prendia seus usuários em seus sistemas, tornando aquele um rendimento infinito.

✅3D ✅Gradientes ✅Efeitos radicais ✅todo catalogo de fontes disponíveis
Mas como justificar um pagamento mensal por uma ferramenta digital? A resposta eram atualizações, a cada ano o Creative Clound lançava novas versões de seus programas com grandes melhorias. O problema é que nem sempre essas melhorias eram boas, na verdade na maioria das vezes não eram. As atualizações que deveriam trazer novidades e novas opções na prática eram cheias de bugs. Com o passar dos anos a Adobe amontou atualizações “inovadoras” sem nunca realmente resolver os problemas primários que os usuários reclamavam constantemente.
Nos últimos anos os softwares se tornaram uma bagunça de ferramentas que muitas vezes se anulavam (o Illustrator que o diga). A Adobe acabou vítima de seu próprio pioneirismo, se uma geração inteira de designers aprendeu suas profissões através do software, qualquer mudança na lógica da usabilidade iria irritar toda uma categoria profissional. Na prática isso significava implementar novas funções sem prejudicar antigas ferramentas, o que tornava grande parte das novidades uma enorme gambiarra.
É claro que nós que usamos o software diariamente nos adaptamos a essas complicações. Ilustradores do mundo todo se especializaram em desenhar no Photoshop, um programa desenvolvido especificamente para edição de imagens, utilizando plugins, brushes criados pela comunidade e muita adaptação, artistas fizeram trabalhos fantásticos de arte digital que se tornaram referência no mercado.
Porém a genialidade daqueles que dedicaram seu tempo a converter um programa de foto em uma ferramenta de ilustração não anula o fato de que ela não foi feita para isso, e a Adobe nunca fez esforço algum para ouvir a comunidade que se criou em cima da plataforma.
A relação entre profissional e Adobe já não era a melhor nos últimos tempos, mas duas coisas abriram ainda mais esse abismo: Surgimento de novos programas e implementação de IA.
Com o lançamento do Canva, Figma, dentre outros, houve uma mudança imensa na área de design. Agora simples layouts podiam ser feitos com muito menos esforço, o que gerou uma onda de revolta entre os designers experientes, mas também a necessidade de admitirmos que havia uma maneira mais fácil de fazer as coisas.
Além toda a discussão em relação a profissionais que trabalhavam exclusivamente com o Canva e a simplicidade da ferramenta, ele trouxe consigo uma UI incrivelmente intuitiva que facilitava e muito o uso, o que nos fez questionar “então porque diabos tudo da Adobe precisa ser tão complicado?”.
O segundo ponto: A implementação da IA. A inteligência artificial está sendo um enorme baque na área criativa, muita gente foi demitida, empresas jurando que esse é o futuro e uma enorme incerteza. E foi nesse cenário que a Adobe decidiu investir pesado em IA, agora imagens poderiam ser produzidas em segundos, mas isso não é mágica, mas sim a apropriação de décadas de trabalho criativo contido no Adobe Stock.
Milhares de artistas do mundo inteiro disponibilizaram suas obras no banco de imagens com a promessa de serem remunerados a cada download. Porém com o uso dessa base de dados para o treinamento de IA esses artistas não ganharam praticamente nada pela apropriação de seu trabalho e muitos agora tinham seu estilo, desenvolvido ao longo de décadas, replicado de forma incontrolável.
Acredito que esse foi o ponto final para muitos profissionais que usavam Adobe. É claro que o mercado ainda depende imensamente da empresa, porém vejo uma guinada cada vez maior daqueles que buscam alternativas depois de tantas péssimas decisões e uma completa falta de comprometimento com os artistas que ajudaram a construir o que ela se tornou.
Por isso o lançamento do Affinity balançou e muito as estruturas já bem consolidadas da Adobe. Aqui não venho dizer que ele é perfeito e nem defender o Canva, é óbvio que o lançamento gratuito do Affinity (antes um software cujo principal ponto era justamente a compra de uma licença vitalícia) foi uma imensa jogada buscando desbancar a Adobe, porém isso mostrou como era sim possível confrontar uma gigante.
O Affinity chega com uma proposta inovadora de mesclar três softwares diferentes (Photo, Design e Publisher) em um super programa. As reações a essa escolha foram diversas, eu ao menos adorei, para mim essa integração fez total sentido e facilitou imensamente minha rotina. Além disso o Affinity foi uma iniciativa desenvolvida muito em cima do feedback da própria comunidade. Ao longo dos anos as atualizações do programa foram focadas em solucionar problemas trazidos pelos seus usuários e em simplificar etapas.
Porém essa não é uma propaganda do Affinity (aliás adoraria ser paga pra isso), ele tem vários problemas. Bugs, falta de alguns recursos e muito a melhorar, mas para um software recém-lançado demonstra um enorme potencial e estou adorando poder explorar novas formas de criar com as possibilidades que ele oferece. Antes que se vire contra nós como todas as outras empresas fizeram ao longo dos anos.
Em um momento de tanta incerteza na área criativa eu (e acredito que vários outros artistas) sigo buscando alternativas e respostas para seguir criando no mundo digital. O avanço da IA sobre nosso trabalho tem sido incrivelmente desestimulante de acompanhar, porém como uma apaixonada por tecnologia que sou eu acredito que ainda haja espaço para utilizá-la a nosso favor, expandindo nossas possibilidades criativas ao invés de limita-la.

De todas as qualidades do Affinity UI personalizável é minha favorita sem dúvida


![]() | Tiny Puppet Sound Eu amo fantoches! E eu amo DJs discotecando no youtube! Então imaginem como não fiquei maravilhada ao descobrir o Tiny Puppet Sound, um fantoche fofíssimo com uma ótima playlist. |

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